Cláudio Damasceno: Avatar da alegria

A tarde da última terça-feira, duas semanas atrás na cidade dos juazeiros, estava estranhamente cinzenta, com tempo inconstante e cara sombria. Passei a tarde numa tristeza profunda, dessas sem explicação. À noite relacionei o dia cinzento e minha tristeza à comoção mundial pela morte de Michael Jackson. Em minha opinião, o maior astro pop da humanidade. No dia seguinte fico sabendo do falecimento de Cláudio Damasceno e entendi porque o tempo, em Juazeiro, chorava, naquela tarde. Eu não era amigo de Cláudio, embora artistas de Juazeiro do século passado inevitavelmente se conhecem. Não sou do teatro, nem quero tecer elogios baratos para aparecer bem na fita. O que quero dizer é fruto de uma missão existencial em expressar uma opinião: Cláudio, dentro das possibilidades que Juazeiro e região permitem, tem importantes contribuições como ser humano e como artista. Lembro-me que há muito tempo ele estava no Centro de Cultura, vestido de mulher, com maquiagem, saltos extremamente altos, roupa colorida e eu fui dizendo: - você é drag queen !!! O termo era pouco conhecido na época e fez um grande sucesso. Ele e Frabrício Fatel ficaram brincando com a palavra. Com o tempo Cláudio cria Loly e vitaliza a personagem. Loly é língua afiada, piada rápida, brincadeira de bom gosto. Cláudio leva para Loly o modo de falar do juazeirense, misturando com petrolinense, casanovense, itamotinguense, salitreiro e outras eiras e beiras e enses... Loly era atual. Conectada com a vida festeira das cidades. Avatar da alegria.  Poucos artistas emplacam com tanta grandiosidade um personagem... Loly é o escracho da mediocridade de Juazeiro. É a forma como Cláudio Damasceno critica e abraça Juazeiro. Como a cidade é. Sem necessidade de crítica ou erudição. Admiro-o por isso. Admiro-o por sua coragem no combate a homofobia. Por assumir o humor como ofício cotidiano. Cláudio é um desses artistas que não tem medo da vaia, tem uma piada para ela. Brinca com o jeito brejeiro de seu povo e ali demonstra uma grandeza de caráter e sensibilidade. Nas poucas vezes que encontrei Cláudio, os momentos foram de sorriso. Sorria das piadas dele que na verdade era o modo mais inteligente de ver o mundo: pelo lado da certeza que estamos passando e temos como missão ajudar o próximo. Para mim, esse é o riso de Loly, de Cláudio Damasceno. Sinto profundamente esta perda prematura, sinto pela sua família, pelos seus amigos e pelo teatro juazeirense. Prefiro pensar que Loly brilha nos palcos estelares. E que do seu riso, nunca se faz pranto.



Escrito por AR às 16h17
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bardo

 

é fresta aberta no mapa estelar

brecha intergaláctica

onde flecha não atravessa

 

é beco secreto da consciência

teoria vesga da experiência do end

caso mitológico, búzio de axé

 

é dedo de menino pequeno

contando estrelas sem juízo enfermo

de quem ainda não sabe contar

 

é índio soprando vento

elevando a poeria tsunâmica

abrindo rasgos no plano urbi et orbi



Escrito por AR às 16h11
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